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7º Fórum da Companhia das Obras 2018. O Bem Comum: Fundamentos e Perspectivas

Confira abaixo a fala do  Dr. Otoney Reis de Alcântara,  nosso Sócio Fundador e Gestor do escritório Alcântara Advogados Associados. O mesmo foi  um dos palestrantes do  7º Fórum Nacional da Companhia das Obras Brasil | 2018 CONSTRUINDO O BEM COMUM: Protagonistas numa mudança de época, no sábado (29/09/18)  apresentando o tema “O BEM COMUM: FUNDAMENTOS E PERSPECTIVAS”, juntamente com o ilustre Bernard Sholz – Presidente da Companhia das Obras Internacional e o ilustre Rafael Marcoccia – Professor do Centro Universitário FEI.

Otoney: Eu começo com uma breve apresentação: eu sou Otoney Alcântara, advogado, casado, três filhos. Eu me formei em Direito em 1995. Durante 4 anos eu trabalhei em dois grandes escritórios e depois trabalhei com dois advogados que fazem a chamada “advocacia costumeira”: são escritórios menores, mas com clientes de um certo porte. Com esses dois eu aprendi muito, eram advogados muito hábeis, muito espertos, e um deles, que foi com quem eu mais aprendi, dizia: “Otoney, eu por dinheiro sou capaz de tudo, até de trabalhar”. Mas quando eu recebi essa pergunta, “o que o seu trabalho tem a ver com o bem comum? ”, coincidiu com o fato de eu estar completando 50 anos, que é uma idade em que você se pergunta algumas coisas. Então eu entendi que essa pergunta era uma pergunta real, era uma pergunta para mim. Eu me coloquei essa pergunta como alguma coisa que era decisiva, porque é como se eu tivesse que entender o percurso que eu fiz durante esse período.

             E pensando em todo esse meu percurso, eu busquei tirar realmente de dentro da minha experiência o juízo, quer dizer, aquilo que fica. O que ficou, de praticamente vinte e poucos anos de trabalho. Então a primeira coisa que eu pensei foi o seguinte: o trabalho é uma experiência quotidiana, objetivamente de sair de dentro dos meus limites, de sair do meu eu. Porque não interessa tanto o que eu sinto ou do que eu gosto, ou o que eu quero: eu tenho que necessariamente encontrar pessoas. Então é uma relação que tem dentro um sacrifício, a primeira coisa que eu percebo é: tem um sacrifício dentro do trabalho. Porque nem sempre eu quero fazer uma audiência, nem sempre eu quero encontrar aquele cliente, quero discutir aquela situação. Então eu percebo que tem duas questões já aqui: uma questão é objetiva, quer dizer: eu trabalho porque eu preciso; e as condições de trabalho, eu não estabeleço, vêm de fora. Porém, para que eu trabalhe, o meu “eu” tem que se mover, porque ou eu me movo, entro em jogo com aquela proposta que me é feita, ou eu estou destruído. Então tem um aspecto que é absolutamente objetivo e tem um aspecto que é subjetivo. Eu penso que essa experiência é como que universal, porque também um astronauta que está na Lua, que é um lugar que deve ser belíssimo, com o tempo ele também tem que se relacionar objetivamente com aquilo que ele deve fazer. A dona de casa: objetivamente ela tem que acordar e fazer certas coisas. Então me parece que essa experiência do trabalho como alguma coisa que lhe é imposta – não que lhe é imposta, que lhe é dada, melhor dizendo, a palavra é “dada” – e que você tem que entrar em relação diariamente, esse trabalho carrega em si algo de sacrifício mas também um convite para você. Então eu pensei: o primeiro fundamento mesmo, o primeiro valor do trabalho sou eu mesmo, porque todos os dias eu tenho que me perguntar por que é que eu faço aquilo – se eu quero trabalhar de uma maneira que não me destrua. O trabalho faz emergir, primeiro a minha necessidade de manutenção; por outro lado, eu não decido o que eu tenho que fazer. Mas então parece, aparentemente, que eu sou para o trabalho. Mas se você vai mais fundo, na realidade o trabalho é para mim. Por que é para mim? Exatamente porque tem dentro esse convite para que meu “eu” possa criar, dentro de condições que eu não estabeleci. Então eu penso que trabalhar é como um marinheiro que em um nevoeiro tem que conduzir o barco. Pode ter ali uma rocha, pode ter ali uma corrente. O trabalho exige de mim uma tensão, uma humanidade, exige de mim uma abertura para a realidade, que sem ele possivelmente eu não teria, eu estaria em casa, relaxando.

             É incrível, porque essa fadiga seja talvez exatamente o bem do trabalho. Porque é essa fadiga que me obriga a me perguntar o sentido do trabalho. Então eu pensava: o trabalho é como criar um soneto, porque o soneto você tem dois tercetos, dois quartetos, e você tem regras para rimar. As regras da rima não é você que as faz – as regras existem. Mas eu posso criar uma coisa belíssima dentro de condições extremamente adversas. Encontrar um cliente que eu não gosto, perder uma causa, perder dinheiro, fazer uma audiência em um outro lugar, tudo isso são os tercetos e os quartetos e as regras. Mas se meu “eu” entra em jogo, eu posso de fato criar. São Tomás de Aquino dizia que é um bem árduo. Ele dizia: “O trabalho é um bem árduo”. Isso não impede que, como tal, ele seja um bem do homem. E é interessante porque não é só um bem útil, não é só porque eu posso usufruir, mas é porque é um bem digno. Ou seja, corresponde à minha humanidade, corresponde àquilo que tem em mim, que não é só natureza. Aquilo que tem em mim que é exigência, que é busca, que é necessidade de crescer. E esse convite ordinário a enfrentar o real, é uma grande possibilidade desse meu “eu” ter que enfrentar, necessariamente, as coisas.

Então eu coloco assim: com o tempo, hoje eu entendo que o mais importante do percurso que eu fiz e continuo a fazer, não é tanto o que eu senti – a alegria, a tristeza, o sucesso, a derrota – mas é a finalidade, o escopo do trabalho. Qual é o escopo do trabalho? Pensando na minha vida, é evidente que tem dois escopos: o primeiro é a minha manutenção e a da minha família; mas também é a minha dignidade, é a expressão do meu eu, como alguém que participa da realidade, criando, plasmando e sendo plasmado por ela. Por isso o trabalho, para o homem adulto, assim como o afeto, são as chaves de leitura da realidade, porque eu acho que uma pessoa que trabalha corretamente tem uma chave de leitura para estar dentro da vida. Porque se você não tem alguma coisa que o chame para o real, nem o cabelo você vai pentear. Muito menos usar a roupa que você vai usar. Então esse convite, essa vocação que o real lhe dá, para o homem adulto passa por essas duas dimensões: o trabalho e o afeto. Elas estão coligadíssimas.

             Bom, eu concluo já a primeira coisa. A primeira questão é que o trabalho é um bem para mim. O trabalho é um bem para a pessoa. E que a primeira contribuição para o bem comum é um homem autoconsciente do valor do trabalho. Porque quando você encontra um homem que é autoconsciente do valor do trabalho, imediatamente ele o fascina. Imediatamente ele o coloca dentro da relação com o real de um outro modo. E eu, por graça de Deus, pude encontrar algumas pessoas interessantíssimas assim. Algumas, digamos, parciais. Por exemplo, esses dois advogados a que me referi. Eu, a princípio, queria fazer Filosofia, então eu me preparei para fazer Filosofia e fazer uma carreira acadêmica. Eu fiz um caminho acadêmico muito interessante. Em determinado momento, eu percebi que não teria como sobreviver com a Filosofia. Por uma razão simples: não tinha concurso, não tinha sequer aula no segundo grau. E depois tive uma crise existencial muito profunda e eu disse: “Vou mudar para Direito porque é uma coisa mais prática, eu saio dessas questões que me perturbam tanto e quem sabe até ganho dinheiro” – isso me fez ir para o Direito. Mas eu não tinha, a princípio, uma fascinação pelo Direito, eu não tinha, não era uma coisa que me fascinava. Mas encontrando esses dois advogados, sobretudo um deles, que tinha uma grande capacidade de se mover no real, mudei minha perspectiva quanto ao Direito. Uma vez nós fomos ao Fórum, eu e esse advogado. O funcionário não resolveu o problema e eu comecei a dar uma aula para ele. Falei: “Olha, você, tem que fazer assim, porque o artigo tal diz isso”. Ele me chamou e falou: “Me diga uma coisa: você é um jurista ou um advogado? ” Falei: “Não sei, acho que eu sou um advogado e, portanto, eu sou um jurista”. Ele falou: “Não. Jurista é o cara que explica o Direito. Advogado é quem resolve problemas. Se você cria um problema com esse cara, nunca mais um processo meu vai avante”. Ele era um sujeito de uma habilidade incrível, e era um grande advogado.

             Então eu comecei a perceber que existe uma forma de entrar no real. Ele dizia: “Advocacia é ciência, você tem que saber o que você faz; arte, porque você tem que saber se relacionar; e artimanha, porque às vezes você tem que driblar”. Então eu comecei a perceber que um homem assim, um homem que ama o que faz, despertava em mim um interesse pelo Direito, pela profissão.

Depois tiveram outros encontros muito interessantes na vida. Uma pessoa a quem faço referência é Fabrício, porque a maneira como ele trabalha, em uma área completamente diferente da minha, é uma grande ajuda: a seriedade, a paixão, a dedicação, o realismo, é uma ajuda imediata para que eu possa trabalhar. A gente nunca trata de Direito, mas trata do senso do trabalho. Nesse sentido, um homem autoconsciente do valor do que faz, é o início do bem comum. Então a segunda consequência que eu percebi é que o trabalho está diretamente ligado ao afeto vivido de maneira ordenada. Eu sou casado, se eu não trabalhasse eu não teria como sustentar minha família.

Mas a coisa mais interessante, para além do fato que eu sustento a minha família a partir do trabalho, é que eu percebo que dentro do trabalho tem um elemento educativo fundamental porque, por exemplo, um filho que vê um pai que trabalha, de certo modo é introduzido no real. Então esse é um outro aspecto: é um bem para a família, mas é um bem não só material, mas é um bem porque você introduz aquela nova geração diante da realidade.

             O terceiro aspecto é exatamente o fato de que eu tenho uma pequena empresa, quer dizer, hoje nós somos cinco advogados, mas há 4 anos éramos doze advogados. Tínhamos crescido muito, era um momento excepcional. No meio de toda a euforia comecei a perceber indícios da aproximação da crise atual e me antecipei. Eu comecei a desfazer o meu escritório. E veja, você de doze colaboradores partir para uma sala só e ficar com três pessoas, meu amigo, não é simples. Realmente foi um momento muito difícil para mim, porque você começa a construir uma coisa, que é expressão de você, e de repente, de maneira abrupta, em pouco tempo, você reduz – eu tive que jogar livro fora, porque não tinha onde colocar. Eu paguei a todas as pessoas com as minhas economias e fiquei com uma pequena reserva. Nessa época uma advogada que ficou comigo – éramos em três – perdeu o prazo de uma ação e eu só tive duas saídas: ou eu enganava o cliente e dizia: “Olha, você perdeu o prazo” (mas nós tínhamos perdido o prazo), ou eu pagava o prejuízo. Eu paguei esse prejuízo, quando eu não tinha quase mais nada. Então foi um momento de uma radicalidade absoluta, porque você fala: “Meu Deus, por que é que está acontecendo isso comigo? Que sentido tem tudo isso? ” Foi um momento realmente de uma dureza que eu nunca experimentei. Mas ao mesmo tempo eu pude verificar aquilo que Carrón falou em uma das Assembleia. Mas você, o que te consiste? Então o trabalho me obrigou, como nunca, a me perguntar isso. Mas você tem uma consistência que não são essas coisas, só que essa pergunta é dramática, essa pergunta é uma vertigem. Eu vivi essa vertigem e digo: recomecei com muita simplicidade, com muita humildade, e hoje, por uma graça de Deus, conseguimos, digamos, reestruturar o escritório, retomando com tranquilidade, com calma.

             Então o trabalho, nesse caso a empresa, gera, contribui para o bem comum, primeiro porque ela responde às necessidades de algumas pessoas. E responder com honestidade também é muito interessante, porque eu poderia ter enganado esse sujeito, mas não enganei a ele. Depois fiquei “Será que fiz o certo? ” Mas eu entendo hoje que foi a coisa mais correta, porque eu tenho uma responsabilidade diante daquelas pessoas. Então respondo, mas respondo olhando aquele cliente, mesmo que ele não tenha se dado conta daquilo que eu fiz. Depois você gera postos de trabalho, que não é uma coisa qualquer. Depois você gera know-how, você gera o “como fazer”. Do meu escritório já saíram juízes, advogados, delegados, promotores, todos que foram estagiários ali.

             Agora na Copa do Mundo, um que é juiz, que está no Maranhão, veio para a cidade. Ele assistiu a todos os jogos na minha casa. A mãe ficava chateadíssima! Mas ele dizia: “Otoney, eu venho ficar com você porque eu me lembro do tempo que nós passamos juntos, e eu quero ficar com você”. Então o fato que você gera pessoas, que você contribui com a formação de pessoas. Depois o fato que você devolve o seu sacrifício com os impostos, uma parte você devolve para toda a sociedade, e isso não deixa de ser uma grande contribuição ao bem comum. Depois você gera lucro, que é riqueza. Pouco, mas gera. No meu caso não é tanto, mas gera. É um bem para todos. Então, no final, eu acho que a obra tem uma conexão imensa com a polis, com a cidade: é o encontro com o juiz, é o encontro com os fornecedores, é o encontro com os clientes, é um conjunto de coisas que você, trabalhando, vai gerando frutos; frutos que vão além daquilo que você imaginava e daquilo que você pensava. Então queria dizer uma coisa, aqui: primeiro agradecer à CdO, e a você também, Bernhard, porque muito do percurso que estou falando hoje, eu aprendi aqui. Eu me lembro que quando eu comecei a trabalhar era muito difícil para mim.  Essa aridez, eu não conseguia ver o bem. Fui convidado para ler um texto de Dom Giussani, aquele que falava do aspecto do trabalho como aspecto mais árido. Aí eu comecei a saber o que era CdO, isso estou falando de quase vinte e poucos anos atrás – ali eu comecei a entender que tem uma forma de olhar o trabalho como um soneto. Não apenas como uma coisa que o destrói. E depois, quantas coisas eu aprendi nesses fóruns, nesses diálogos, e ouvindo os exemplos. Então eu penso assim, o maior fruto do trabalho é exatamente ter me tornado uma pessoa que, digamos assim, que leva a sério o meu trabalho, que ama o trabalho, que ama minha família e que ama os amigos.

Confira a palestra completa acessando:  www.cdo.org.br/obemcomumfundamentoseperspectivas

Fonte: cdo.org.br

 

 

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